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TEXTOS E REFLEXÕES
A MALA DA CURIOSIDADE OU DA ESPONTANEIDADE
Marco Antonio da Rocha
De volta à escola, num dia de muito calor, estamos no pátio. Convidá-los ou não para irmos para a sala e trabalharmos.
Bom, ficamos no pátio e aquilo que tínhamos conversado e de certa forma planejado trocou de lugar com a hora do improviso.
A mala dos palhaços, Jujuba e Lenga-Chenga, volta a cena, depois do último encontro tivemos a idéia de trazer novamente os palhaços para a escola, com a questão do toque, do carinho como central, depois do auto-reiki e do toque nos colegas propôs às crianças que elas toquem nosso rostos ao maquiarem os palhaços parecia ser o próximo passo.
Brincando no pátio de repente as meninas desaparecem, só escutamos suas vozes, mas não as enxergamos, onde estariam, o que aconteceu...
Ainda sinto algum receio em relação à forma que as crianças aceitariam a figura dos palhaços, então resgatamos o ritual da mala pedindo para que todos virem mágicos e coloquem o que imaginam dentro da mala (será que as meninas estão aí dentro), antes disso propusemos toda aquela exploração através dos sentidos daquele objeto (Qual a cor, forma, textura, cheiro, som, etc...) e assim prendemos e estimulamos sua curiosidade, lógico que paramos várias vezes reiterando nossos acordos de convivência, nossas combinações e limites; então renascem os óculos com nariz de palhaço, bem como as duas máscaras vermelhas que cobrem o nariz. Tudo isso aceito de forma tranqüila e divertida por todas as crianças, ali mesmo no meio do pátio sentados na areia à sombra das árvores.
Depois disso as despedidas e a certeza de que em algum momento os palhaços retornariam.
Da curiosidade a espontaneidade, o improviso trouxe a possibilidade de jogar com o inesperado, com o feeling, ou aquele sentimento de entrega e experimentação, intuição, presentes no aqui-e-agora, como mais duas crianças brincando com os colegas o espaço do inédito se constituiu e a mágica do diálogo, da comunicação plena de sentidos significados, ou de significações sentidas se estabelece e depois disso tudo é beleza e alegria.
De uma iniciativa da Profe Tine de juntar as folhas secas do chão do pátio, surgem crianças carregando primeiramente com nosso auxílio depois sozinhas, uma bacia cheia de folhas a serem despejadas em nosso canteiro, a orientação da brincadeira foi o caminhão do lixo que faz a limpeza da escola, momento ressentido de não possuirmos uma máquina fotográfica para o registro, mas eternizado em nossa memória pela felicidade no rostinho de cada um que participava da brincadeira. Bom trabalho encerrado, todo o "lixo" recolhido, é hora de guardar as "ferramentas" (pazinhas, baldes...) e deixar tudo organizado.
É hora do lanche, depois disso levar as cascas de frutas ao canteiro e enterra-las.
O cavalo está partindo, um tronco de árvore jogado no pátio da escola vira um cavalo e leva todas as crianças para um passeio, ganha rabo de palha e galopa por todos os lugares ao som de pocotó e da música Meu Cavalo Piancó.
Trabalho Dirigido X Trabalho Espontâneo. Na espontaneidade do ato de entrega ao brincar com as crianças surge a possibilidade de reinvenção de relações e convívios e da estimulação de aspectos que fazem parte de nosso direcionamento, um direcionamento muito mais intuitivo do que racional; muito mais pautado pelo sentir do que pelo pensar, e ao refletir sobre esta experiência neste instante, percebo ter uma profundidade muito maior, ser muito mais verdadeira por sua inteireza. Perceber o respeito pelo instante de cada um no processo que despertou a experiência de convívio, o respeito entre seres humanos que se entendem como sabedores e desejosos, independentemente de seu tamanho, idade, sexo, cor, etc...
Como tornar inteligível para educadores e famílias o poder destes instantes de produção, destas formas que fogem aos moldes conhecidos de ensinar e aprender, da riqueza do descobrir o mundo e descobrir-se no mundo neste processo de brincar. Este brincar que ao ser refletido passa a ser chamado, muitas vezes de trabalho, o que não deixa de ser uma verdade, pois para nós adultos, "trabalho é coisa séria", e para nós crianças brincar também é coisa muito séria.
Escrito por Brincar é Viver às 21h14
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BRINCAR É VIVER
BRINCA-SE QUANDO SE ESTÁ ATENTO AO QUE SE FAZ
NO MOMENTO EM QUE SE FAZ.
BRINCAR É ATENTAR PARA O PRESENTE.
UMA CRIANÇA QUE BRINCA ESTÁ ENVOLVIDA
NO QUE FAZ ENQUANTO FAZ.
SE BRINCA DE MÉDICO, É MÉDICO;
SE BRINCAR DE MONTAR NUM CAVALO, É ISSO QUE ELA FAZ.
O BRINCAR NÃO TEM NADA A VER COM O FUTURO.
BRINCAR NÃO É UMA PREPARAÇÃO PARA NADA,
É FAZER O QUE SE FAZ EM TOTAL ACEITAÇÃO,
SEM CONSIDERAÇÕES QUE NEGUEM SUA LEGITIMIDADE.
NÓS ADULTOS, EM GERAL NÃO BRINCAMOS
E FREQÜENTEMENTE NÃO O FAZEMOS QUANDO AFIRMAMOS
QUE BRINCAMOS COM NOSSOS FILHOS.
PARA APRENDER A BRINCAR
DEVEMOS ENTRAR NUMA SITUAÇÃO NA QUAL
NÃO PODEMOS SENÃO ATENTAR PARA O PRESENTE.
HUMBERTO MATURANA. GERDA VERDEN-ZOLLER
AMAR E BRINCAR, SÃO PAULO : PALAS ATHENA, 2004
Escrito por Brincar é Viver às 14h34
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EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA - PARTE I
EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA UM PORTAL DE ACESSO À INTELIGÊNCIA AFETIVA Ruth Cavalcante
O pensamento pedagógico e social no Brasil e no mundo de hoje sugere que a grande demanda na formação dos educadores é de natureza didática, ou seja, é preciso aprender, cada vez mais, como ensinar. Na minha estreita convivência com os colegas educadores, como técnica da Secretaria de Educação do Município Fortaleza, professora de escola pública e privada e consultora de diversas instituições educacionais, discordo desse ponto de vista, pois considero que a maior necessidade na área da formação de docentes é criar um espaço que permita a expressão da identidade dos educadores e desperte uma nova visão de si mesmo e do mundo numa interdependência entre o pensamento e o mundo.
Isso me foi sendo revelado na minha vivência de educadora e em algumas dezenas de encontros sobre formação de educadores realizados através do Departamento de Cursos e Consultorias do Centro de Desenvolvimento Humano – CDH, de cuja direção tenho a alegria de participar desde 1981. Foi nessa Instituição, que este ano celebra suas Bodas de Prata, que se formaram centenas de profissionais das áreas de Educação, Saúde e Ciências Humanas em geral, dentro da visão de inteireza do ser humano que pretendemos refletir neste artigo. Tivemos oportunidade de transformar o CDH no maior centro de construção desse novo saber e pudemos acompanhar principalmente os educadores, demonstrando de diversas formas que o objetivo da sua ação pedagógica não se restringe apenas a desenvolver a capacidade do educando de aproveitar as fontes de conhecimento, mas também a considerar a necessidade de interação educador/educando com os o que o cercam e com o meio, sentindo prazer em estar e conviver com os outros.
Penso que um dos caminhos para se efetivar mais rapidamente uma mudança paradigmática na educação contemporânea é o cuidado com a formação dos educadores. Não é necessária uma análise muito aprofundada da formação tradicional dos educadores para observarmos que, de fato, dentro desse modelo convencional o destaque é preferencialmente para o aspecto cognitivo. Há uma grande dificuldade para sair do modelo de construção do conhecimento fundamentado muitas vezes em teorias de ensino-aprendizagem que já não atendem às necessidades de uma realidade em permanente transformação. Assim constatamos que a educação centrou-se, ultimamente, no acúmulo de conhecimento e preparação intelectual e tecnológica tanto dos educandos quanto dos educadores, esquecendo outras dimensões de necessidades do ser humano. Segundo Cândida Morais:
Se estamos preocupados em formar indivíduos criativos, cooperativos, solidários e fraternos, mais integrados e harmoniosos, capazes de explorar o universo de suas construções intelectuais, teremos de optar por um tipo de paradigma educacional diferente dos modelos convencionais atuais e que, por sua vez, foram influenciados por determinadas correntes psicológicas e filosóficas ancoradas num determinado paradigma adotado pela ciência. Se quisermos formar indivíduos intelectuais e humanamente competentes e bem formados, capazes de aceitar desafios, construir e reconstruir teorias, discutir hipóteses, confrontadas com o real, formar seres em condições de influenciar na construção de uma ciência no futuro ou participar dela, então, necessariamente, o paradigma educacional precisa ser revisto. (1996:20)
O que urge nos tempos de hoje é convidar os educadores a uma reflexão no caminho de conhecerem-se a si mesmos, permitindo-lhes assim encontrar-se com o seu saber e a sua sabedoria. O conhecimento do conhecimento os levará a uma atitude de constante vigilância para não se apegar às suas certezas e verdades, mas permanecer abertos à percepção de um mundo que produzimos juntos, nós e os outros, um mundo que se move em direção à auto-regulação, à felicidade e à vida plena.
Já que sua prática profissional é a docente, o educador deverá estar muito consciente de que ela exige um alto nível de responsabilidade por lidar, não apenas com a construção teórico-pedagógica, mas com os sonhos, utopias e esperanças de seus educandos. Por isso mesmo é que precisamos não ficar somente na denúncia, mas anunciar caminhos que a educação pode tomar através de práticas emancipatórias, resgatando sonhos e utopias numa celebração da vida.
Frente a isso vemos a urgência de uma proposta baseada na vida, capaz de contribuir sobremaneira com a educação e, especialmente, com a formação do educador. Nossa proposta é a Educação Biocêntrica que se baseia no Princípio Biocêntrico, desenvolvido pelo cientista chileno Rolando Toro Araneda e muitos educadores espalhados pelo mundo e particularmente no Ceará. Nesse Estado Brasileiro não apenas as experiências e reflexões teóricas vêm sendo sistematizadas em livros e revistas científicas, mas também ocorreu a experiência pioneira de cursos no âmbito da Universidade: já iniciamos a terceira turma de pós-graduação lato sensu na Universidade Estadual do Ceará e formamos uma pela Universidade Estadual Vale do Acaraú. Isto significa que já contamos com cerca de cento e cinqüenta educa-dores com o título de especialista em Educação Biocêntrica.
Toro, idealizador desse Princípio assim o define:
O Princípio Biocêntrico coloca seu interesse em um universo compreendido como um sistema vivo. O reino da vida abrange muito mais que os vegetais, os animais e o homem. Tudo o que existe, dos neutrinos ao quasar, da pedra ao pensamento mais sutil, faz parte deste sistema vivo prodigioso. Segundo o Princípio Biocêntrico, o universo existe porque existe a vida, e não o contrário.
A vida não é a conseqüência dos processos atômicos e químicos, mas da estrutura guia da construção do universo. As relações da transformação matéria-energia são os estados de integração da vida. A evolução do universo é, na realidade, a evolução da vida”.(2002:51)
O Princípio Biocêntrico, como se pode perceber, é um novo paradigma no qual toda atividade humana está em função da vida; segue um modelo interativo, de rede, de encontro e de conectividade; situa o respeito à vida como centro e ponto de partida de todas as disciplinas e comportamentos humanos, e restabelece a noção de sacralização da vida.
O ponto de partida para a mudança das relações culturais, estéticas, sensíveis e biográficas do ser são as interações, a sensibilidade como movimento em conexão com outras realidades. De acordo com a Física Quântica, nós criamos o mundo que observamos. Já a visão biocêntrica afirma:
Hoje podemos dizer que a noção de vida como algo de dimensão planetária ou cósmica está presente na ciência, nas experiências místicas e na vida comum de qualquer pessoa sensível. Investigar e vivenciar essa presença da vida como estrutura guia é o grande desafio que, inevitavelmente, nos deslocará para novos paradigmas da existência, a uma visão Biocêntrica, a qual ultrapassa o panorama holista (a tendência do todo manifestar-se na diversidade, e esta, por conseguinte revelar sua potencialidade ao todo) e se manifestar em um sentimento sagrado da vida e do Universo, de todas as coisas existentes, sentimento este que tem como origem a vivência Biocêntrica.” (Góis, 1995:)
O Princípio Biocêntrico considera as interações, as conexões de todo o sistema vivente. Propõe avançar além do enfoque antropocêntrico tão reforçado na formação do nosso modo de pensar, sentir e agir, nos tornando muitas vezes seres dicotomizados, com o pensamento fragmentado. O caminho apontado na visão biocêntrica tem como ponto de partida o universo organizado em função do todo, em relação e em função da vida como convivência e coexistência do divino. Não apenas da vida dos animais, das plantas e do ser humano, mas de tudo o que existe. A visão biocêntrica nos aponta um estilo de sentir, de pensar e de agir inspirado nos sistemas viventes e possibilita uma reaprendizagem das funções originais da vida. O ser humano, nessa visão, é um ser relacional, cósmico que tem uma qualidade transcendente.
Leonardo Boff, em seu livro “A Ética da Vida”, segue essa mesma linha de reflexão quando afirma:
Hoje, em face da crise ecológica mundial, a grande pergunta é: como viver? Como nos relacionar com a Terra para preservá-la, não ameaçá-la para garantir a nossa própria vida e existência de todos os demais seres que vivem na Terra? A resposta só pode ser: ”viva de tal maneira que não destruas as condições de vida dos que vivem no presente e as dos que vão viver no futuro. Ou positivamente: viva no respeito e na solidariedade para com todos os companheiros de vida e de aventura terrena, humanos e não humanos, e cuide para que todos possam continuar a existir e a viver, já que todo o universo se fez cúmplice para que eles existissem e chegassem até o presente. (199: 41)
Quando trazemos a vida para o centro, tornando-a o foco de nossas atenções, como ocorre na visão biocêntrica, voltamo-nos naturalmente também para as questões existenciais. E aí passamos a buscar a concretização de um novo projeto educacional, com uma proposta pedagógica que reconheça a educação como sistema aberto e o educando como um ser humano em sua multidimensionalidade, considerando sua dimensão física, biológica, mental, psicológica, espiritual, cultural e social, buscando integrar-se consigo e com o meio ambiente. Uma educação que venha a estimular o educador a desenvolver um pensamento flexível, criativo e com capacidade inovadora, considerando a afetividade, a criatividade e a intuição como indicadores significativos do desenvolvimento humano.
Para alcançar esse desenvolvimento, precisamos mergulhar na vivência. Sobre esse novo pensar, essas novas mudanças paradigmáticas, nos aporta Cezar Wagner:
Estamos diante da complexidade (Ruelle, 1993) a qual exige novas maneiras de perceber, uma nova postura e novos parâmetros (Morin, 1990). Assim criando as condições para a ciência do complexo, uma ciência que não se baseia na física nem nas partes apenas, com queria Descartes, mas sim na vida, por isso se propõe como ”Ciência da vida” (Capra, 1997). Esta requer uma profunda reforma do pensar, uma verdadeira revolução das estruturas do pensamento e dos valores, no sentido de um pensamento que descobre o observador como parte da realidade estudada, isto é, sujeito e objeto integrados em um só processo, que é linear e não-linear, em equilíbrio, dissipativo e biocêntrico, e que, sobretudo, está em consonância com a beleza e o mistério da vida. (2001:17)
No pensar antropocêntrico, o significado do Universo é dado a partir do referencial humano. No pensar biocêntrico, a consciência, a totalidade que é tudo que é vivo penetra no espaço-tempo e manifesta-se em um número indefinido de maneiras e percepções. Tudo existe como probabilidade. No momento em que eu vivencio, a realidade começa a acontecer, é a minha realidade. A pergunta é: quais são as probabilidades com que eu estou me conectando para construir minha realidade? O sentimento de plenitude física, mental e espiritual é o estado de equilíbrio dinâmico consigo mesmo, com os outros e com o universo que se adapta a cada momento que surge: a existência se constrói no presente.
A educadora Maria Cândida Moraes, no seu livro “Paradigma emergente da Educação”, segue o mesmo caminho considerando que o educador já não precisa ter certeza das coisas, pode aceitar a indeterminação porque compreende a complexidade não apenas do ato educacional, mas de tudo da vida A base epistemológica da Educação Biocêntrica se encontra no Princípio Biocêntrico que gerou o conceito de vivência de Toro, mas também leva em consideração os estudos de Vygotsky sobre a construção do sujeito da realidade como processo histórico- cultural, uma relação sócio-interacionista, como na construção do conhecimento crítico a partir do diálogo amoroso que fundamenta o pensamento de Paulo Freire. Caminhamos no sentido da construção do ser cognoscitivo-afetivo-condutual em um mundo histórico-cultural. Por isso adotamos o que já é prática na Educação Holística: a visão transdisciplinar. A transdisciplinaridade foi mencionada pela primeira vez por Piaget como uma dimensão interna da forma como o pensamento se expressa no mundo e nas pessoas tendo como referência não apenas o intelecto, mas passando pela percepção e sensação. Uma maneira de ver, sentir, estudar e construir ciências.
Estar ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e principal-mente além de qualquer disciplina. É o fim do pensamento que dividia as ciências (humanas, exatas, biológicas, e da informação) entre a objetividade e a subjetividade. É uma postura, uma atitude do humano perante o conhecimento, o pensamento e o mundo. Abarca diversos âmbitos da aprendizagem e do desenvolvimento humano e social tanto na educação formal, nos seus diversos níveis de escolaridade, quanto na educação informal, nas organizações, comunidades e movimentos sociais.
A transdisciplinaridade, por não ser uma matéria nem um método, faz um casamento perfeito com a Educação Biocêntrica, que tem como objetivo primordial desenvolver a Inteligência Afetiva que levará a pessoa a uma nova consciência com profundas conseqüências éticas que só se fazem possíveis com o fortalecimento da identidade.
A identidade é esse conjunto de características psicobiológicas que faz da pessoa uma criatura única, diferenciada e inconfundível. Ela está em cada célula como um selo que identifica cada pessoa. Rolando Toro (1991) faz algumas considerações sobre a identidade, das quais destaco alguns tópicos:
a) A identidade de um indivíduo só se revela plena-mente na presença do outro; b) A relação amorosa fortalece a identidade, ao mesmo tempo que a torna vulnerável devido ao contato e aos processos de fusão; c) A dança ativa o núcleo central da identidade: a comovedora vivência de estar vivo; d) Sendo o movimento uma expressão profunda da identidade, a dança pode ser o instrumento apropriado para produzir modificações terapêuticas; e) A identidade é permeável aos agentes externos e em especial à música.
Aprofundaremos, ao longo desta reflexão, estes elementos que fortalecem a identidade.
A aprendizagem, nesta abordagem pedagógica, se dá através do conhecimento (epistemologia) e da vivência (ontologia). De que vivência estamos falando? Toro assim a define: O primeiro a investigar o sentido de “vivência” foi o filosofo historicista alemão Wilhelm Dilthey; ele propôs o conceito expresso no termo alemão “Erlebnis”, e o define como “algo revelado no complexo psíquico dado na experiência interna de um modo de existir a realidade para um individuo”. A concepção de W. Dilthey influiu na fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty, na ontologia de Martin Heidegger e na sociologia de Max Weber.
Escrito por Brincar é Viver às 23h47
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EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA - PARTE II
Na teoria da Biodança, redefini o conceito de “vivência” como a experiência vivida com grande intensidade por um individuo no momento presente, que envolve a cenestesia, as funções viscerais e emocionais (2002: 29/30)
Deste modo, o conceito de vivência proposto por Rolando Toro e empregado inicialmente na Biodança e, mais recentemente, na Educação Biocêntrica significa a própria vida reduzida às suas proporções mais diminutas e, ao mesmo tempo, mais fidedignamente representativas do modelo em tamanho original. É a totalidade da relação com a realidade, símbolo verdadeiro da experiência plena e não mutilada da realidade igualmente plena e total.
As vivências não são controladas pela consciência nem dirigidas pela vontade, embora possam ser evocadas e terminam chegando à consciência. Expressam-se dependendo da identidade de cada um, portanto, são diferentes para cada um. A intensidade será de acordo com a sensibilidade da pessoa e o tipo de vivência experimentada. Têm uma dimensão cenestésica envolvendo todo o organismo em sensações de prazer, tristeza, alegria ou solidarie-dade. Por isso é tão importante favorecer vivências integradoras porque elas, biológica e existencialmente, têm um poder organizador.
A vivência é a metodologia básica da Educação Biocêntrica aplicada no sentido de gerar novas condições de aprendizagem. Aprender não apenas pelo cognitivo, mas aprender a conectar-se com nossas emoções e sentimentos, saber ouvir a nossa intuição, saber ouvir o outro através da “escuta ativa”, poder captar na fala do outro toda a sua existência. Essas são posturas essenciais na relação humana. Aprender a sentir para, mais facilmente, aprender a pensar. Nietzsche (Zaratustra) vai mais além quando afirma: “para aprender a pensar é preciso aprender a dançar”. Tirar o foco da valorização dos aspectos externos das experiências e considerar as vivências internas das pessoas na perspectiva de uma visão biocêntrica. O instante em que se está vivendo não se acumula – é aqui e agora – mesmo que esteja relacionado com o passado. É diferente da experiência; esta sim, se acumula.
Esse processo metodológico visa estimular uma reflexão consciente e portanto crítica da realidade; estimula o potencial criativo e toca principalmente o núcleo afetivo das pessoas. Aí acontece o desenvolvimento da Inteligência Afetiva contribuindo para a formação de educadores críticos, criativos, solidários, afetivos, éticos e envolvidos com o processo de transformação pessoal e social no sentido da preservação e desenvolvimento de todas as manifestações de vida. Acreditamos ser esta proposta necessária como metodologia para a nossa visão prática transformadora, compreendendo o ser humano numa integração do corpo, emoções/sentimentos, mente e espírito.
A base da nossa metodologia, portanto, é a vivência que tem uma função mediadora, para a aprendizagem. É diferente, como já afirmamos, da experiência, que maneja um objeto de estudo ou de aprendizagem. A experiência é cumulativa, nela pode acontecer a vivência ou não. A vivência não tem a função de conhecimento, não se propõe como um lugar de conhecimento. Ela tem um sentido em si mesma, traz a possibilidade de formar uma nova atitude frente ao aprender. Favorece a formação de valores para aprender, mas não é o aprender propriamente e sim a expressão e impressão de alta sensibilidade, é um instante em que a pessoa se expressa e o processo nela se imprime.
A vivência propicia a formação de vínculos intensos, consigo mesmo, com o outro e com a totalidade que geram a base para o desenvolvimento da Inteligência Afetiva. Esses vínculos têm muita importância na construção do conhecimento, porque mexem também com as estruturas cognitivas e aumentam a capacidade de se ouvir e ouvir o outro e a realidade. Resignifica e revaloriza o aprendizado, desenvolvendo novas posturas de aprender através das emoções e sentimentos. Amplia o processo pedagógico para um processo de vida. Nós ouvimos, com muita freqüência, depoimentos de participantes dos nossos cursos falando das transformações existenciais ocorridas a partir deles. Isso comprova que há uma resignificação da aprendizagem para transformar-se a si mesmo e ao mundo e não para estabelecer mecanismos de controle.
É um encontro com a realidade interior de cada um e proporciona uma reeducação afetiva que leva a uma conduta de inteireza. Precisamos, no entanto, de espaço adequado para as atividades serem vivenciadas. Significa dizer que precisamos criar condições para o educador vivificar conceitos e transformá-los cheios de significado para sua própria vida. Que vai desde a reflexão sobre sua vocação de ser mestre até um simples texto da literatura que ele oferece para reflexão de seus alunos. Sobre isso Paulo Freire nos relembra:
Qualquer tipo de educação que seja coerentemente progressista precisa discutir não apenas o texto mas a própria vida. A própria existência do “não ainda significa que o texto nunca pode ser visto como algo que está paralisado. A compreensão da vida, como algo que é paralisado é uma compreensão necrófila. Uma compreensão amorosa da vida é aquela que percebe a vida como um processo acontecendo e não algo que é determinado “a priori”. O texto não apenas fala de coisas da vida, mas tem ele próprio uma vida. Assim, minha posição diante do texto é a posição amorosa de alguém que recria tais textos recriando assim a vida neles. Poder-se-ia quase descrever muito da educação contemporânea como o oposto: de ter uma compreensão necrófila na qual o texto está imobilizado e morto. (2001 : 74)
Como acontece a vivência? Um dos componentes deflagradores de vivência é a música. Além do encontro humano acima referido, a música é um elemento base da Educação Biocêntrica e via de acesso à identidade. Ela é uma tentativa do ser humano que tem profunda afinidade com o som de interpretar a harmonia do Universo. A música, assim como a poesia, a dança e a pintura representam, para a Educação Biocêntrica, possibilidades de suscitar vivências sumamente complexas e sutis, de grande intensidade e com efeitos transformadores na nossa existência. Para Rolando Toro, a consciência de ser parte integrante de um universo musical aparece já na origem da história humana, nas lendas antigas e nos mitos arcaicos. Vem, portanto, de tempos muito antigos a percepção do ser humano de que o Universo era regido por pautas rítmicas, por acontecimentos que se repetem ciclicamente, por fenômenos de pulsação e vibração, com tudo se ordenando dentro de um plano harmonioso, tal qual uma sinfonia cósmica. Basta olhar atentamente para a natureza para perceber que tudo é ritmo, assim como no nosso corpo: os batimentos cardíacos, a respiração, a circulação sanguínea e o pensamento constituindo um harmonioso e complexo sistema interno.
Precisamos despertar em nós mesmos a musicalidade corporal para que nossas ações se tornem mais fluidas. Tomando como base os elementos da música: ritmo, melodia e harmonia, sabemos que o ritmo nos une ao Universo, a tudo que é origem; a melodia elabora nossa comunidade amorosa e a harmonia nos presenteia a intimidade e a transcendência.
Assim, para os educadores biocêntricos, a música é uma linguagem que vai direto ao coração sem precisar passar pela análise da consciência, embora a percepção musical seja uma experiência de totalidade. Ela é percebida com o cognitivo, com a sensibilidade e intensidade das emoções, com os instintos, com todos os nossos órgãos. A música é uma forma de energia capaz de estimular e despertar potenciais biológicos e emocionais bem como de induzir certos estados que despertam emoções e sentimentos escondidos. Existe uma unidade perfeita entre música e expressão, já percebida desde a antiguidade.
Na Educação Biocêntrica, usamos a música como base para as atividades, o que não significa “um fundo musical” apenas para tornar a atividade mais agradável, mas sim um instrumento que é parte e está profundamente vinculado a ela. Consideramos a música como um poder orgânico que vitaliza as células, e usamos músicas selecionadas com base na semântica musical, com critérios de eficácia experimentados para produzir vivências intensas. As músicas são selecionadas para cada exercício através de um processo sensível e cuidadoso. Esses exercícios já vêm sendo utilizados na Biodança há quase 40 anos e são estruturados em uma estreita integração entre música, movimento e emoção. Há músicas que fortalecem elementos de força e vigor, são capazes de ativar, elevar os níveis de atenção, euforizar e energizar as relações com o meio, ligadas à energia Yang, enquanto outras desarmam, induzem tranqüilidade, sono, harmonia íntima, possibilitando a entrega própria da energia Yin. Rolando Toro sugere, para a seleção das músicas, critérios a serem observados, dos quais destacamos alguns:
1. Descrição do conteúdo emocional da música: definir se o tema é alegre, triste, nostálgico, euforizante, intenso, etc;
2. Observar a força indutora da música para mobilizar vivências. (A música tem que ter poder deflagrador de emoções /sentimentos);
3. Diferenciar músicas orgânicas de inorgânicas, ou seja, se a música determina movimentos integrados ou dissociados;
4. Observar se a música tem um conteúdo emocional definido. É importante que o tema se mantenha estável e que não haja divagação emocional;
5. Observar se a música se ajusta ao exercício e à vivência que se quer induzir. A gestalt música – vivência – movimento deve ser perfeita;
6. Atentar para que o texto da canção não seja contraditório à vivência que se quer induzir;
7. Cuidar para que a passagem de temas suaves a temas ligeiros não seja brusca.
8. Melhorar sempre a escolha musical sem perder de vista a sua força indutora;
Quando a música toca a emoção/sentimento, o movimento se torna inevitável e surge a dança. Como expressão de vida, como celebração, como conquista, como entrega, como encontro, como cura, como diálogo com o Divino numa forma de ingressar numa cosmovisão.
Dança
Deus infundiu o ritmo nos homens, Nos animais, nas plantas e até nas pedras. O homem que se move, O pássaro que voa, A folha que cai na terra... Tudo parece convidar para a dança. No núcleo do átomo como na dança das estrelas, O nosso Criador e Pai semeou ritmo e harmonia. Escutar música, ver uma dança, é oração verdadeira
Dom Hélder Câmara Todos os povos dançam. Por que os povos dançam? A dança pode ser uma expressão pessoal ou coletiva As pessoas são concretudes e se expressam através da sua ação no mundo, da corporeidade vivida. O corpo como visibilidade do ser. O ser se fazendo no mundo. Por isso usamos também como recurso metodológico desenvolver o prazer cinestésico através de exercícios de harmonia e fluidez, que chamamos poeticamente de dança. Ativar a expressão afetiva e criativa, através da dança bem como do canto, do desenho e da pintura, restaurando assim os potenciais de vida do educador e do educando e reiniciando uma civilização de vida. A dança, na nossa concepção, é tudo que pulsa, se move, desde o nosso ritmo biológico, o ritmo do coração, da respiração, ao impulso de vinculação com a espécie, aos movimentos de intimidade. Uma dança orgânica, um movimento profundo que surge das entranhas do ser, é um movimento vivencial, é uma necessidade natural do ser humano. Portanto, precisamos desenvolver a coordenação rítmica, a fluidez, exercícios de vitalização através de gestos arquetípicos estimulados por músicas que despertem impulsos de conexão afetiva. A dança nesse contexto é um movimento existencial expressivo e não se limita à dimensão estética. Trata-se de um refazer existencial que vem da vivência e da afetividade, substituindo a exigência de rendimento, competição e destreza muitas vezes exigidos nos exercícios mecânicos e sem motivação interna das aulas de educação física, aeróbica e tantas outras práticas de esportes de puro treinamento motor. Não é uma teoria da subjetividade mas uma corporeidade vivida. De acordo com Wallon, além do seu papel na relação com o mundo físico, o movimento tem um papel fundamental na afetividade e também na cognição. Ele dá ênfase à motricidade expressiva, isto é, à dimensão afetiva do movimento. A primeira função do movimento no desenvolvimento infantil é afetivo. (La Taille: 1992)
Como a dança significa um movimento de expressão humana, uma manifestação de identidade, ela representa um poderoso instrumento de reeducação tanto do educando quanto do educador. Na vivência do prazer existencial, a educação deve propiciar a se aprender a ter confiança em si mesmo, aprender a amar, aprender a percepção da sacralidade da vida. Dançar é um modo de existir. Não apenas vago, mas celebração, participação e não espetáculo, a dança está presa à magia e à religião, ao trabalho e à festa, ao amor e à morte. Os homens dançaram todos os momentos solenes da sua existência: a guerra e a paz, o casamento e os funerais, a semeadura e a colheita. (Roger Garaudy 1980)
Escrito por Brincar é Viver às 23h46
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EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA - PARTE III
Tendência pedagógica evolucionária O grande mestre, o único mestre é a vida. Esse grande mestre, por misericórdia por nós, pode colocar no nosso caminho um mestre encarnado. Se esse mestre encarnado for um verdadeiro mestre, vai fazer de nós não um outro discípulo, mas fazer-nos descobrir o nosso próprio mestre interior. Jean-Yves Leloup Cada tendência pedagógica é marcada pelas características do contexto sócio-histórico em que foi formulada e pelos diversos paradigmas e pressupostos filosóficos, metodológicos e epistemológicos nos quais ela está inserida. A Educação Biocêntrica formula alternativas no plano pedagógico condizentes com o momento histórico que vive hoje a humanidade. Pensamos no planeta e no destino da humanidade. Fiéis às exigências do mundo contemporâneo e a partir de estudos das tendências pedagógicas brasileiras (Liberal e Progressista) nós, educadores do Ceará, que já estamos aplicando a Educação Biocêntrica desde os meados da década de oitenta, agrupamos quatro abordagens pedagógicas (Educação Dialógica, Educação Holística, Construtivismo e Educação Biocêntrica) dentro do que chamamos Tendência Pedagógica Evolucionária. Elas têm em comum um compromisso com a vida, buscam uma reeducação afetiva e, particularmente a Educação Biocêntrica, cultiva as energias conservadoras da vida, que são os instintos.
Como afirma Cezar Wagner, a Educação Biocêntrica é uma proposta pedagógica que busca, através do diálogo (Freire, Rogers) do movimento-dança e da Vivência Biocêntrica (Toro), facilitar um processo educativo voltado para uma vida mais saudável, assim como para a construção do conhecimento crítico e integrado com a realidade. Incorpora dimensões éticas e dialógicas, em uma visão na qual a pessoa é considerada com um ser inteiro, que pensa, sente, fala e age em cooperação com os outros. Como a Educação Dialógica, ela parte da ação e do diálogo; como a Educação Holística que busca a paz, a consciência cósmica e ecológica, a vivência de plenitude para todos os homens e mulheres, ela parte do enfoque holístico, de uma visão do ser humano como um todo integrado assim como de uma visão construtivista, tendo por base dois grandes estudiosos do psiquismo humano: Vygotsky e Piaget. Sua metodologia é totalizadora e integradora, não fragmentando ou dicotomizando o sujeito e o objeto, o corpo e a mente. É uma visão na qual tudo se unifica na compreensão da realidade. Vai mais além da interdisciplinaridade, que apenas junta elementos vários para compreender o todo. Assim, como afirmamos anterior-mente, através da transdisciplinaridade ela se movimenta fora do espaço e do tempo. A Educação Biocêntrica, como uma das integrantes dessa tendência, se destaca quando prioriza o deflagrar da inteligência afetiva partindo da vivência para a consciência. Sem a consciência enraizada no mundo pré-reflexivo, o que temos é uma vida instintiva voltada somente para o prazer pessoal e uma consciência rígida ou alienada acerca da vida, da sociedade e das pessoas. A inteligência afetiva clama pelo encontro entre aqueles e aquelas que, juntos, buscam não apenas o autoconhecer-se, mas também conhecer e mudar a realidade. Como tudo está interligado a integração dessas quatro tendências (Educação Dialógica, Educação Holística, Construtivismo e Educação Biocêntrica) pode constituir-se numa força poderosa de mudança social, formando um todo harmonioso. A Educação Biocêntrica, em especial,através de seu método reflexivo-vivencial, envolve um pensamento mais complexo que abarca os aspectos sociais, históricos e ecológicos além dos cerebrais, dando início a um grandioso movimento evolutivo.
Essa proposta pedagógica nos dá poderosas ferramentas afetivas, cognoscitivas e sociais. Desse modo, os fatos sócio-históricos enquanto perspectiva de transformação ou de alienação, como em Freire e Vygotsky e a Vivência em Toro, podem ser vistos de modo integrado. É uma concepção de Educação baseada na vida, na cultura e na sociabilidade, sem perder seu caráter próprio de Educação que objetiva o ensino-aprendizagem. Temos, portanto, a base epistemológica da Educação Biocêntica nestes três autores que formam os pilares desta abordagem educacional tendo como raiz a vida instintiva e a vivência levando à construção do conhecimento crítico, do desenvolvimento humano e da mudança social numa relação de integração do processo cognoscitivo-afetivo e do papel dos sentimentos no processo da consciência e da conscientização. São eles o eixo pra trabalharmos os conceitos, o método e as técnicas da Educação Biocêntrica.
O enfoque principal não é a inteligência, mas sim a articulação entre ela, o organismo como um todo, o corpo, o desejo e o prazer em relação amorosa com o outro integrado à totalidade. É o educando como sujeito do processo educativo, não havendo dicotomia entre o aspecto cognitivo e o afetivo, mas uma relação dinâmica, prazerosa dirigida para o ato de conhecer-se, conhecer o outro e conhecer o universo, na qual o saber entra pelos sentidos e não apenas pelo intelecto; porém uma relação na qual o educador é, acima de tudo, um artista, um político, um cuidador sem neutralidade, porém a favor da vida dentro de uma visão do todo social. Ele sabe que aprender faz parte do ato de libertar-se, e que a aprendizagem depende da criatividade, onde quer que estejamos, seja Escola, na empresa, na comunidade, ou nas ações de inclusão social.
Ao falar de Educação Biocêntrica, meu sentimento é o de quem está apresentando aos Educadores sonhos muito antigos de todos nós da área educacional, mas com a imensa alegria de poder recuperar a essência da educação que eleva à plenitude humana, e permite que cada pessoa tenha autonomia de construir sua própria vida em conexão com todo o sistema vivente. Na Educação Biocêntrica o respeito e a sacralização da vida são o centro e o ponto de partida de todas as disciplinas. Nossa matéria de estudo e de ação pedagógica é a própria vida. Para nós, não há possibilidade nenhuma de aprendizagem e evolução se trairmos as forças que conservam e nutrem a vida. Não apenas a linguagem, o conhecimento e a informação fazem mediação para a aprendizagem, mas sobretudo as emoções e os sentimentos que se desenvolvem no processo ensino-aprendizagem. Quanto mais prazerosas forem as situações, mais se fortalecem os processos de aprendizagem, e mais abandonamos a cultura do castigo, do erro, da culpa, do medo e da tristeza. O que se pretende na Educação Biocêntrica é que, através da expressão da sua identidade, de ser o que é, cada pessoa possa gerar novas for-mas de civilização na busca de realização, de prazer e de felicidade.
Entendemos que a aprendizagem não se dá apenas pelo cognitivo, mas também pela percepção, pelo sensorial, pela intuição, enfim, pela vivência; que a consciência se incorpora ao âmbito da emocionalidade e o mundo vivo do educando passa a ser o que move a aprendizagem. O que podemos concluir é que o núcleo afetivo da existência está intrinsecamente vinculado à essência da nossa Identidade e a estrutura da nossa existência tem suas bases na resposta a três grandes enigmas: ONDE QUERO VIVER, COM QUEM QUERO VIVER E O QUE QUERO FA-ZER, que Toro chamou de Projeto Existencial.
Transpondo para a educação, sugiro três profundas interrogações: ONDE QUERO APRENDER, COM QUEM QUERO APRENDER E O QUE QUERO APRENDER. Os três componentes afetivos do núcleo existencial estão profundamente ligados e são a força que impulsiona não apenas a nossa existência mas também as três perguntas da aprendizagem. A pessoa que está saudável escuta suas emoções e sentimentos, sabe o que quer, quais são suas reais necessidades, e reconhece seu caminho.
A Educação Biocêntrica, como já afirmamos, estabelece um modo de sentir, de pensar e de agir, tendo como referência existencial a vivência e a compreensão dos sistemas viventes que estão organizados em função da vida. Tudo o que existe no Universo é expressão de vida, é expressão do Cosmo. Rolando Toro, ao formular esse paradigma, tenta responder à pergunta fundamental sobre o nosso estilo de viver, por isso considerou a vida como referencial absoluto, inspirando-se nas leis universais que conservam os sistemas viventes e tornam possível a evolução. Seu pensamento foi assim sintetizado: A estratégia de transformação existencial muda, partindo do Princípio Biocêntrico. Os parâmetros de nosso estilo de vida são os parâmetros de vida cósmica. Em outras palavras, nossos movimentos, nossa dança se organizam como expressões de vida... Tudo o que existe no universo, elementos, estrelas, plantas, animais e seres humanos, são componentes de um sistema vivente maior. (Toro: 1992) A Educação Biocêntrica, portanto, atende a uma necessidade natural da vida e por isso transcende a cultura e a relação ser humano; rege-se pela dança cósmica e considera a mulher e o homem como seres em movimento, em constante pulsação com todo o Universo. Cada um deve ser capaz de mover-se por conta própria, de perceber a si mesmo e à realidade, sendo ele próprio a referência de sua percepção, da sua relação, da sua ação. No ser humano nada é definitivo, tudo está permanentemente em mudança, embora conservando o núcleo da sua identidade que é singular e única para cada um.
Através de recursos didáticos específicos, a Educação Biocêntrica favorece a expressão dos nossos próprios potenciais, expressão originária do que há de mais íntimo em nós mesmos, na essência do sentir-se vivo.Da vivência do ser inteiro, na qual as pessoas sentem, amam e se tocam livres dos medos e dos tabus, surge a capacidade de compartilhar, de dar e receber, de se entregar, de ter participação comunitária com compromisso e solidariedade. Como sujeitos da nossa realidade podemos reinventá-la através da poesia, da dança, da carícia, da ação política.
No entanto, não basta mudar dentro de si, a mudança deverá dar-se também socialmente, na unidade dialética entre a dança e a política. Para uma formação plena como educador é preciso disposição para sair do pensamento puramente antropocêntrico e assumir também o Princípio Biocêntrico que interfere profundamente no modo de pensar, sentir e agir, aprofundando os vínculos com as pessoas e com o meio cósmico. Acreditamos na força da prática de uma educação para a liberdade e felicidade das pessoas, para a justiça social entre os seres humanos, para a busca de viver em paz, para a comunicação entre as pessoas mediada pelo diálogo amoroso. Acreditamos nessa Pedagogia do Encontro. Que-remos nos preparar cada vez mais para dialogar com os que pensam e fazem educação; queremos que nossa linguagem amorosa seja compreendida por todos os educadores, que, como nós, buscam contribuir para influir mais decisiva e rapidamente na mudança dos paradigmas da pedagogia contemporânea.
A Educação Biocêntrica é a educação e reeducação do viver, uma reeducação afetiva e uma elevação do nível da consciência. Tudo isso pressupõe uma permanente auto-educação, auto-cuidado e compromisso evolutivo do educador. A metodologia vivencial aqui proposta favorece o contato com o ritmo de crescimento de cada educando, a sincronização com o outro e a sintonia com o Universo. Nas salas de aula, assim como nas organizações, nas comunidades e nos movimentos sociais de um modo geral, a prática pedagógica da Educação Biocêntrica tem como base do ensino-aprendizagem as vivências e as reflexões integradoras: a vivência-diálogo é o que tem sido nossa prática com os educadores com os quais convivemos nos cursos, no nosso cotidiano, nos eventuais encontros.
BIBLIOGRAFIA
1. ANDRADE, Cássia R. e ARRAIS, Cristiane Educação Biocêntrica e a Dança das Palavras Geradoras de Vida (monografia) Fortaleza, 1997.
2. ANDRADE, Cássia R. Educação Biocêntrica: Vivenciando o Desenvolvimento Organizacional. Fortaleza: BNB, 2003.
3. BOFF, Leonardo – Saber Cuidar. Petrópolis, RJ:Vozes, 1999.
4. _______________ - Ética da Vida. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
5. CAVALCANTE, Ruth e outros – Educação Biocêntrica – Um Movimento de Construção Dialógica. Fortaleza: Edições CDH, 1999.
6. CAVALCANTE, Ruth y otros - Educación biocéntrica – Un Movimiento de Construcción Dialógica. 3ª Ed. Fortaleza:Edições CDH, 2004.
7. FREIRE, Paulo – A Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1997. 8. ____________ - A Pedagogia da Autonomia- Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
9. ____________ – Ana Maria Araújo Freire (organizadora) - Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo:UNESP, 2001
10. ____________ - Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
11. GOIS, Cezar Wagner de Lima – A Vivência – caminho à identidade. Fortaleza:Edições Viver, 1995.
12. LA TAILLE, Yves – Piaget, Vygotsky, Wallon – Teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus,1992.
13. MATURANA, H. Rezepka, Sima N – Formação humana e capacitação. Petrópolis,RJ: Vozes, 2000.
14. MORAES, Maria Cândida – O Paradigma Educacional Emergente. Campinas, SP:Papirus, 1998.
15. MORIN, Edgar – Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília, DF: Cortez Editora, 2000.
16. TORO, Rolando. Teoria da Biodança – Coletânea de Textos. Organização Cezar Wagner de Lima Góis, Fortaleza: ALAB, 1991.
17. TORO, Rolando – Biodanza. 2ª Ed. São Paulo: Olavo Braz, 2005.
Escrito por Brincar é Viver às 23h43
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UM OLHAR SOBRE A ESCOLA
ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFANTIL DENILÂNDIA
PROJETO BRINCAR É VIVER
EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA
Boa tarde, tudo bem?
Sejam bem vindos a nossa escola, eu sou o Marco e gostaria de convidá-los a conhecer nosso espaço de convivência, o que alguns também chamam carinhosamente de escolinha. Ah! Sim, acho que este é um dos princípios que organizam o nosso conviver coletivo, o carinho.
É, entendemos que o vital é podermos desfrutar uns da presença carinhosa e amorosa dos outros, respeitando e fazendo-se respeitar independente do tamanho, cor, sexo, faixa etária, etc. lógico, entendendo profundamente o processo de desenvolvimento de cada ser que aqui se inter-relaciona.
Bom enquanto caminhamos pelo espaço da escola que está sempre em dinâmica transformação a partir das necessidades e desejos dos que aqui convivem, vamos conhecendo como ela se faz.
Apesar de perceberem que não temos salas específicas para cada turma, entendemos a necessidade de uma organização pautada por turmas (da mesma faixa etária) que dispensam cuidados particulares, desta forma as educadoras são referências para determinadas tarefas (cuidados básicos como troca de fraldas, estímulo e verificação dos atos de higiene, alimentação, etc.) a serem atendidas durante a rotina da criança dentro da escola.
Bom, acho que não devemos relevar a importância de uma pessoa como referência para a criança na escola, mas acreditamos e apostamos em referências dinâmicas, na qual o grupo de educadores preocupado em manter o foco principal da educação infantil, no nosso ponto de vista, a formação humana e dentro dela a empatia no profundo vínculo afetivo, estabelece uma relação de harmonia trabalhando e construindo juntos com pais, mães e crianças este pacto de confiança mútua e bem estar coletivo.
Rotina! É não podemos deixar de falar nela. Para alguns, mais importante que para outros. A importância de uma rotina estruturada para as crianças é sempre interessante na perspectiva de construir segurança no grupo, lógico que esta rotina não pode ser engessada, sabem aquela história daquela música “todo dia ela faz tudo sempre igual”, isso mesmo, sabemos que para nós adultos às vezes a rotina nos aprisiona e enche o saco, nos deixando estressados e cansados da mesmice, bom será que para as crianças isso também não pode ser verdadeiro? Quando o novo, aquilo que desperta a nossa curiosidade deixa de fazer parte de nossa “rotina”, as coisas e os grupos nos quais convivemos se tornam desinteressantes, se esvazia o desafio, aquilo que me estimula a brincar, a criar, a inventar novas possibilidades de vida e aprendizado deixa de ter sentido.
É com este sentimento, que acreditamos na inesgotável capacidade que temos de educar e sermos educados, e é assim que investimos na condução das atividades de estimulação dirigidas, pautadas pelos interesses e desejos do grupo, quer dizer se me dá vontade de aprender sobre a forma que as formigas vivem, tenho a liberdade de expressar este meu desejo diante do grupo e verificar se existem mais interessados para que esta proposta se efetive, lógico em nem todos os momentos será possível atender a todos os desejos. Respeitando-se a diversidade, precisamos ser políticos o suficiente para buscar um consenso e direcionar nosso foco de interesse.
Ah! Mas e aí o que fazer com aquele que sugeriu algo e não foi contemplado, bom acho interessante construirmos conceitos desde a infância, tais como aceitação, respeito, limite, cooperação... E, além disso, também devemos salientar a importância do desacordo, do conflito, da frustração, do medo, do confronto de idéias e sentimentos... Também não podemos deixar de levar em conta que nem tudo, ou talvez muito pouca coisa se aprenda de forma dirigida, e que sim, aprendemos muito na espontaneidade de estarmos juntos, brincando, olhando algo que nos chama a atenção; um objeto, um movimento, uma música, etc. Enfim, se estamos realmente presentes com toda a nossa inteireza nos instantes vividos temos sempre a imensa possibilidade de ampliarmos nossa consciência e o conhecimento sobre tudo e todos, inclusive e principalmente sobre nós mesmos.
Esta busca de um olhar para a integralidade dos seres que convivem no ambiente escolar tem como ponto inicial a percepção daquilo que é saudável, aquilo que é potencial em cada pessoa que convive neste cotidiano e a partir disso investimos direcionando as atividades para a auto-sustentação e estimulação destes potenciais permitindo que cada um, autonomamente possa buscar saídas para seus conflitos e desafios, é mais ou menos como aumentar o repertório de formas de agir que possuímos.
Ah! Sim, só para completar essa história de referência dinâmica, grupos de trabalho por interesses... Bom se eu não tenho como hábito comer frutas, como é que posso querer que minha filha coma frutas? Trocando em miúdos, aprendemos muito a partir do exemplo, do modelo, assim conviver o quanto antes com essa diversidade de opiniões, de formas de agir, sentir e pensar e aprender a construção deste processo de respeito à alteridade, nome complicado, hein? Mas, que nada mais é do que respeitar o outro, o valor que o outro tem de existir, é um passo importantíssimo para respeitar a mim mesmo, para acreditar no valor que tenho como ser humano.
E é assim que estamos e somos a Denilândia, este turbilhão de afetos, desejos, e, sobretudo de esperanças de um aqui-e-agora melhor, mais justo, solidário, feliz, amoroso, prazeroso, enfim, perfeito na sua imperfeição humana.
Obrigado por terem vindo nos conhecer e esperamos ansiosos poder conviver com vocês aqui na escola.
Escrito por Brincar é Viver às 19h23
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UM OLHAR BIOCÊNTRICO SOBRE O BRINCAR
Gaston Andino
Resumo
Este texto é o começo de uma reflexão sobre o brincar na perspectiva biocêntrica, dentro da metodologia da Biodanza e na Educação Biocêntrica. Encontrar justificativas teóricas sobre o brincar, sua importância para o desenvolvimento da criança e também o que pode significar no mundo do adulto. Qual deve de ser a atitude do facilitador diante do brincar.
Palavras chaves - Brincadeira, jogo, lúdico, desenvolvimento integrado. Por que brincar?
“Desde o tempo das cavernas, o homem já manifesta sua humanização através do brincar. Tal ato pode ser visto em suas pinturas rupestres, em suas danças, em suas manifestações de alegria” (Lima Marilene, 2004:6).
Dentro de esta proposta da vida como centro, podemos observar que quando trabalhamos com grupos de crianças, seja com a metodologia da Biodanza ou na Educação Biocêntrica percebemos que a maioria das vivencias devem ter um sentido lúdico, de brincadeiras, pois elas entendem melhor e aceitam mais as propostas vivencias desta maneira, podendo assim ter uma melhor participação na aula.
Já há muito tempo Rolando Toro nos chama a atenção para esta questão de brincar dentro do trabalho com biodanza para crianças: “e importante utilizar as tendências lúdicas das crianças, seu gosto pelos exercícios de equilíbrio e destreza em danças com saltos, corridas e ímpeto. Há muitos jogos durante a aula”.(Toro Rolando, 1991:640).
Brincar é fundamental no universo da criança. É assim que ela se descobre e descobre o mundo que a rodeia. Ela vai se apropriando de um conhecimento profundamente vivido. E por isto que ela “aprende”, ela agarra para sua vida aquilo que nesse momento é fundamental. Esta forma de aprendizagem é uma aprendizagem muito concreta e real. “Brincar é essencial à saúde física, emocional e intelectual do ser humano. Brincar é coisa séria, porque na brincadeira a criança se re-equilibra, recicla suas emoções e sacia suas necessidades de conhecer e reinventar a realidade” (Lima Marilene, 2004:5). Na metodologia da Educação Biocêntrica permite-se também o uso de jogos, no sentido de cooperação e não de competição.
Faz-se importante destacar a diferença entre brincar e jogar. A brincadeira se bem tenha certas normas, regras, elas não são tão rígidas, como no jogo. Neste, elas são fundamentais para sua existência.
“O jogo é uma atividade espontânea, realizada por uma ou mais pessoas, regido através de regras que determinam que o vencerá. Delimitam-se regras, tempo de duração, o que é permitido e proibido e indicadores como terminar a partida” (Cássia Regina, 2003: 128).
E interessante que, se surgir à necessidade de que o grupo queira jogar, propor para que eles mesmos criem as regras como parte da atividade.
A brincadeira está mais aberta a improvisações, é mais espontânea e ela pode ser um caminho a vivências profundas.
“A vivência que trabalha com o lúdico atua diretamente sobre o humor endógeno no inconsciente vital” Rolando Toro
Significa que as brincadeiras atuam diretamente sobre toda a nossa existência e são um estimulo à nossa identidade, reforçando a auto-estima e auto-imagem. Podem dar uma possibilidade nova de percepção de si e do mundo que nos rodeia, e ser profundamente transformadoras na vida da criança.
“Tal como a personalidade dos adultos se desenvolve através de suas experiências da vida, assim as das crianças evolvem por intermédio de suas próprias brincadeiras feitos por outras crianças e adultos. Ao enriquecerem-se, as crianças ampliam gradualmente sua capacidade de ampliar a riqueza do mundo externamente real. A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora, que quer dizer vivência” (Winnicott, 1982: 163).
Brincar é fundamental na construção da Identidade da criança, uma Identidade que se constrói na relação profunda com estas vivencias estruturantes na vida da criança.
A brincadeira dentro da proposta da Biodanza e na Educação Biocêntrica Dentro da teoria da Biodanza e da Educação Biocêntrica, encontramos as chamadas “Líneas de vivencia”, ou canais biológicos por onde a vida se expressa. (TORO, Rolando. 2002)
São os potenciais de vida, latentes dentro de nós, e que por uma cultura antivida não se permite que se manifestem em todo seu esplendor; ou se manifestem de maneira dissociada.
Na brincadeira observamos que se integram as cinco líneas de vivenciais que a biodanza propõe:
a) A Vitalidade porque necessita da presença ativa do participante e do outro; a alegria e disposição para brincar estão muito presentes. São as fontes propulsoras da vida, da vontade de viver, do agir no mundo.
“A forca, o ímpeto, a energia vital, o vigor e a consistência biológica e existencial são manifestações da vitalidade” (Wagner Cezar, 2002:89).
Algumas brincadeiras são mais ativas – enérgicas e outras mais calmas – tranqüilizadoras.
Como por exemplo, das mais ativas:
O chefe manda, na qual um componente do grupo vai ao meio e faz um movimento no ritmo da musica e o resto do grupo o acompanha fazendo de maneira similar.
Ou das mais calmas:
O espelho em pares (mímica em pares), onde primeiro um faz o movimento na melodia da musica e outro acompanha fazendo similar. Também pode ser o leque chinês onde entre os dedos das mãos vamos encontrando o olhar dos colegas e vinculando afetivamente com todo o grupo. Estas são mais harmonizadoras.
Existem outras tantas vivências dentro da metodologia da Biodanza nesta polaridade de ativação e harmonização. Na polaridade do modelo teórico entre consciência aumentada de si mesmo e regressão.
b) A Sexualidade porque nos remete ao prazer de brincar, de estar presente no que se faz. Traz-nos diferentes sensações corporais agradáveis que decorrem das brincadeiras de contato e vinculo afetivo.
“As crianças tem prazer de brincadeiras físicas e emocionais” (Winnicott, 1982:161).
Tenho observado em meu trabalho com crianças em situação de risco que elas têm integrado esta questão do contato e do prazer em suas brincadeiras de uma forma mais natural e espontânea, onde o riso, o contato físico se dá livremente. Isto pode acontecer pela falta de brinquedos industrializados que muitas vezes motiva o jogo individual o a competição. Da mesma forma ocorre quando eles estão presentes, o brincar perde a criatividade e espontaneidade. As crianças que tem acesso à tecnologia e aos brinquedos têm mais dificuldade de brincar corporalmente, atrapalhando-se. Muitas apresentam dificuldades motoras de sinergismo, coordenação e pouca resistência física ao esforço. Percebo que os computadores deixam as crianças sempre em um lugar mais receptivo, onde as funções mentais de raciocínio e lógica se dão mais frequentemente, passando o corpo e o movimento a um segundo plano. Por isto acredito que essa serie de dificuldades corporais de movimento e contato, que são percebidos, tenham a ver em parte com isto: uma vida muito sedentária. c) A Criatividade é a linha de vivência donde se encontra a brincadeira, permitindo a manifestação de diversas variantes: da improvisação, do ridículo, do inesperado.
“Criar significa entre outras coisas, transformar, inovar, crescer, mudar a si e ao mundo, com o mesmo gesto, no mesmo ato” (Wagner Cezar. 2002: 90).
Na maioria das vivencias propostas em Biodanza, diferentemente da Educação Biocêntrica, não se utilizam objetos como intermediários da brincadeira, porque permite que entre em cena a imaginação. Quando não existe o brinquedo, temos que imaginar esse objeto. A nossa capacidade de imaginar fica muito mais ampla, pois podemos criar o objeto com tamanho, forma, cor e cheiro que nós queiramos.
“Todos sabemos que as brincadeiras infantis manifestam a ação do impulso criativo humano. Muitas envolvem um alto grau de imaginação. A facilidade com que a criança faz de conta indica que seu mundo é em grande parte, subjetivo, com muitos sentimentos armazenados, prontos para se usados. Como ela está relativa-mente livre de pressões e responsabilidades, a imaginação consegue transformar a realidade num mundo de fadas com oportunidades ilimitadas para a auto-expressão e o prazer” (Alexandre Lowen, 1984:15).
d) Pelo fato que muitas delas requerem a presença do outro como uma possibilidade para que a brincadeira aconteça, a Afetividade, o vinculo que se gera pode ser muito profundo, engendrando mais necessidade de vincular-se para poder brincar, olhar olho no olho. Isto nos permite trabalhar algumas questões como: cuidar do objeto, do outro, como cuido de um brinquedo que gosto muito. Também como alguém se relaciona com os objetos com os quais brinca, nas vivencias sempre existe a troca: ora um, ora ou outro, o que requere mais atenção na atitude que eu tenho quando brinco, como trato ao outro, as coisas em geral na mia vida.
“É a fonte da ética, o caminho pelo qual o ser humano pode construir coletivamente uma sociedade democrática e amorosa – de cidadãos” (Wagner Cezar. 2002: 92). A brincadeira pode possibilitar momentos de profunda empatia amorosa entre os participantes das brincadeiras - vivências.
“A brincadeira fornece uma organização para a iniciação das relações emocionais e assim propicia o desenvolvimento de contato social” (Winnicott,1982:163) A afetividade permite que no brincar a criança comece a vivenciar sua capacidade de Amar aquilo que faz. Anos mais tarde poderá ser o aspeto profissional que ela exercerá, e que lhe dará sentido à sua existência.
e) A Transcendência está sempre presente porque na brincadeira, muitas vezes esquecemos o tempo, o espaço e até a proposta da brincadeira. Transcender e ir além de algo que nos limita, de nossas possibilidades que até agora conhecíamos, ou de nosso ego.
“Acreditamos que transcendência é o caminho de humanização do homem e talvez a única eficaz no combate á pobreza (qualquer tipo) que ameaça a espécie humana, isto porque favorece a superação das limitações, permitindo o acesso a novos degraus na fronteira evolutiva” (Spode, Clezar, 2006:54).
Ela e uma ponte entre o universo interno da criança e o mundo que o rodeia, no qual ela está inserida. “Pode-se facilmente ver que as brincadeiras servem de elo entre, por um lado, a relação do individuo com a realidade interior, e por outro lado, a relação externa ou compartilhada” (Winnicoot, 1986:164)
O Facilitador que brinca!
O facilitador que trabalha com crianças é um facilitador que brinca o tempo todo, sabendo também na brincadeira dar o limite necessário si o grupo o alguém no respeita a proposta que se pede. Sabe também adequar a consigna ao grupo, de maneira poética, lúdica e simples, como um convite a participar sempre das brincadeiras.
Alguma vez pode chegar a fantasiar-se de palhaço, ou utilizar algum elemento temático para sua proposta de aula desse dia, sem medo de sentir-se ridículo. O facilitador é um Mago do afeto e da espontaneidade.
O adulto que brinca!!! Também podemos utilizar esta proposta nos grupos de adultos, já que muitos “tomam a vida demasiada a serio”, perdendo a naturalidade, a espontaneidade que a vida nos traz, a cada momento. Temos que saber adequar-nos, ter a fluidez necessária, sim perder-nos nos papeis sociais que vivemos no cotidiano. Tudo tem um tempo e para cada coisa ou situação tem um começo, um meio e um fim. A vida acontece no momento presente e requer de cada um de nós a nossa maior atenção. Logo esse momento fará parte do passado. A criança sabe, por isso vive intensamente cada brincadeira.
“A criança adquire experiência brincando. A brincadeira é uma parcela importante de sua vida”. (Winnicott, 1982:161)
Quando o adulto brinca se está vinculando com o Arquétipo da Criança Divina, a fonte da vida, se dará o resgate de sua inocência e espontaneidade.
O arquétipo é uma imagem inconsciente, com um forte conteúdo emocional, é a historia da humanidade dentro de nos. Este arquétipo é um caminho para a saúde e a integração existencial.
Brincando é que se aprende!
Em um mundo tão bélico, violento, consumista e adulto, não temos tempo para “brincadeiras”. Tudo tem que ter um resultado (lucro), o tempo é ouro, brincar não é coisa séria! Assim há mil e um pretextos para o adulto estressado não permitir que espontaneidade e o lazer, caminhos necessários para a criatividade e a saúde possam se expressar em seu cotidiano. Assim vai matando a Criança Divina que existe dentro dele. Ela é uma janela para uma vida mais integrada e saudável. Por isso é tão difícil ao adulto perceber o mundo da criança, suas necessidades de brincar, de lazer, de estar sempre inventando brincadeiras novas.
Dentro de este contexto, a educação atua dentro de uma cultura adulta, repressiva, antivida. Na escola e na sociedade não se tem tempo ou existem lugares específicos e horas adequadas para a criança “brincar”.
“A Educação contemporânea, em quase todo Ocidente, não cumpre sua tarefa de entregar ao individuo pautas internas de desenvolvimento. Não desperta neles os germens naturais de vitalidade, nem os valores do intimo. Não desenvolve os potencias criativos, a liberdade intelectual, nem a singularidade das aptidões. Não fomenta o esplendor das relações humanas. A Educação atual tende a produzir a adaptação servil ao establishment” (Toro Arañeda, 1991).
Assim, neste mundo tão doente, a criança se encontra inserida, onde suas necessidades e desejos são pouco satisfeitos, quando, não cheios de tecnologia e brinquedos industrializados; que muitas vezes pretendem preencher lagunas afetivas. Isto limita que a criança possa brincar, criar, ser.
A brincadeira dentro da um olhar biocêntrico é um caminho de profundas vivencias integradoras. Elas trabalham as cinco linhas de vivencia, possibilitando sua expressão, sua potencializacão e integração. “As vivencias são expressões do entrelaça-mento da vida instintiva com o mundo valorativo - simbólico; são próprias do humano e necessitam da realidade histórico-social para acontecer” (Wagner Cezar, 2002:80).
Sem sombra de duvidas o brincar da Biodanza e da Educação Biocêntrica dão uma profundidade a esta atividade, pois nele acontecem varias aprendizagem. Essencialmente o corpo, o movimento e o contato vinculado com a presença do outro é parte da brincadeira. Quando o “outro” é o brinquedo então nos permite vivenciar diferentes situações: a possibilidade de poder brincar com alguém, vinculado pelo olhar, pelo tato, pelo afeto. Ter que se vincular e cuidar do “brinquedo”, perceber e ser percebido por alguém, isto sem duvida permitirá que a criança tenha uma vivencia profunda de valores e de ética sobre o cuidado da vida. Vivenciar a possibilidade de que o outro possa brincar conosco, entregar-nos a essa relação tão particular de ser um objeto e gente da brincadeira, permite sair do meu mundo, de meu ego para me entregar a uma relação de igual a igual, a uma relação profundamente humana.
“É brincando que a criança vai interiorizando o mundo que a cerca; na troca com o outro vai se constituindo sujeito humano, posto que simboliza o resultado socialmente acumulado, pela capacidade de estar em momento de ócio, livre do que é do negócio, do negociável, ou tudo aquilo que nega o ócio” (Lima Marilene, 2004:6)
Ao trabalhar em esta perspectiva lúdica, estaremos também trabalhando elementos da motricidade, como ritmo, equilíbrio, fluidez, agilidade e outros. Permitindo que se manifestem integradamente. Se existe alguém com alguma dificuldade motora possa ir trabalhando-a de maneira lúdica.
O trabalhar com criança e uma aposta na vida, na crença que: fortalecendo nos primeiros anos de vida do individuo, lograremos ter jovens e adultos mais saudáveis, mais integrados com a vida, com o todo. “Evitar a catástrofe psicológica, fortalecendo a saúde integral durante a infância, é uma das tarefas de maior rendimento terapêutico, da mais imperiosa necessidade” (Toro Rolando, 1991:639).
A brincadeira, então, é uma das ferramentas importantes para este tipo de trabalho: um brincar profundamente humano e sensível, que permite que nesse processo de viver nos construamos integradamente e percebamos ser parte de uma grande rede onde o centro seja sempre o cuidado com todo o vivente.
Escrito por Brincar é Viver às 18h44
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FÁBULA DO AQUI-E-AGORA
Fábula do Aqui-e-Agora
Num outro tempo, num outro espaço, havia um Rei movido por suas In-Quieta-Ações, dúvidas e curiosidades. Tudo queria saber. Observava e questionava sobre todas as coisas.
Porém, em suas buscas não encontrava respostas que o satisfizesse para 3 perguntas essenciais:
A primeira era: Qual é o momento mais importante na vida de um ser humano?
Para essa, lhe diziam: Ah! É o nascimento, é o casamento, é a formatura... mas, nenhuma resposta lhe servia.
A segunda questão era: Qual a pessoa mais importante na vida de um ser humano?
E muitas respostas logo surgiam: é seu pai, sua mãe, seus filhos... mas, nada que lhe diziam o agradava.
E a terceira pergunta era: Qual a coisa mais importante que um ser humano pode fazer durante sua vida?
Então, lhe falavam: Ah! É escrever um livro; é plantar uma árvore; é ter filhos, dançar... E novamente, as respostas não o satisfaziam.
Muito tempo depois um pouco cansado de sua busca por respostas, o Rei ao caminhar por uma aldeia de seu reinado encontra uma velha casa, muito humilde e não lembra de já tê-la visto antes. Resolve então bater a porta para ver quem mora naquele espaço.
De repente, surge a sua frente a figura de um velho eremita e ao vê-lo, o Rei como que tivesse adentrado no templo da sabedoria relembra das três perguntas que o inquietavam tanto e resolve fazê-las ao velho:
Por favor, o senhor poderia responder para mim algumas perguntas?
E o velho calmamente, respondeu que sim. Então o Rei fez a 1ª. Pergunta: Qual é o momento mais importante na vida de um ser humano?
O velho ermitão olhou para o Rei e humildemente lhe respondeu: O momento mais importante na vida de um ser humano é o presente, o aqui-e-agora.
O Rei surpreso com a resposta logo lhe propôs a seguinte: E qual é a pessoa mais importante na vida de um ser humano?
O ermitão novamente com calma lhe disse: A pessoa mais importante na vida de um ser humano é a pessoa com quem vocÊ está no aqui-e-agora.
O Rei com a esperança renovada de que sua sede por respostas finalmente estava sendo saciada, logo colocou a terceira e ultima pergunta: Mas, então me diga, meu bom homem: Qual é a coisa mais importante a ser feita na vida de um ser humano? O velho sábio com toda a sua humildade respondeu:
A coisa mais importante a ser feita na vida de um ser humano é o que você faz amorosamente, com a pessoa que está com você, no aqui-e-agora.
Escrito por Brincar é Viver às 18h22
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IDENTIDADE E COTIDIANO
IDENTIDADE E COTIDIANO
Identidades se revelando no constante contato com outras identidades. A desacomodação surge. Quem sou eu? Que grupo é este? O que sou neste grupo?
Um psicólogo no dia-a-dia da escola. Um homem no meio de um grupo de mulheres. Um homem na educação, na educação infantil, entre as crianças...
O que desacomoda e faz me desconhecer, o que causa estranhamento, é espelhado e sentido diretamente no contato com os seres que compartilham o espaço da Escolinha.
Oh! Profe (.?.) Marco (.?.) - Mônica.
Oh! Profe (.?.) Marco (.?.) Proofe (.?.) Aí eu tô atrapalhada! – Magali.
Oh! Profe (.?.) Ah! Não! Marco. – Cebolinha
Oh! “Carolino” vem cá. – Cascão
A gente vai ao banheiro de porta aberta e esquece que agora tem o Marco na escolinha. – Professoras.
Um cotidiano de relações e interesses que forjaram papéis sociais defendidos em nossa trajetória histórica de seres humanos.
Um cotidiano enclausurado em seu movimento contínuo?
A cristalização de nossas atuações posturas repetitivas consumam relações pautadas em princípios, muitas vezes alienantes, por que não dizer, até mesmo anti-vida, onde homens e mulheres dispendem um grande esforço energético para manter seus instintos primordiais controlados, mantendo um estado, às vezes, a custas de sofrimento, de adoecimento; negando-se condutas inatas aos seres humanos, aos seres vivos, como amar, cooperar, repousar, guarida, etc; aspectos integrantes da “bio logia”, de uma lógica da vida.
O homem com suas características próprias, voz grossa, pêlos pelo corpo, músculos, silueta e sexo diferentes, mas com as mesmas capacidades potenciais dos seres humanos, o amor incondicional, a maternagem, a paternagem, as inquietações, necessidades e curiosidades que o fazem interagir até os seus limites, querendo reconhecer-se mais e mais.
No nosso cotidiano de variáveis e papéis aparentemente controlados, uma nova presença parece balançar nossas estruturas, nos jogar momentaneamente no caos para daí reordenar sentidos, resignificar papéis e posições frente a vida.
Me parece que não é nada mais que a própria vida cumprindo seu papel de educadora, de mestra misteriosa e suprema, nos apresentando a cada instante a chance de nos reconectarmos com a beleza e o prazer de viver. É como a criança que ao sentir medo do escuro é tomada pelas mãos e levada até a escuridão com segurança e tem então a possibilidade de perceber e superar seu limite. Uma sabedoria interna nos toma pelas mãos e nos conduz até a beira do abismo, mostrando-nos a possibilidade de renovação, de religação.
Na realidade talvez o mais simples de tudo seja nos darmos conta, percebermos, ou tomarmos consciência de que estamos vivos.
O cotidiano é feito de escolhas, conscientes ou inconscientes, me parece que sempre escolhas corretas, pois existe nelas a semente do aprendizado e o fim de nosso estado de dissociação no encontro da harmonia e da integralidade de nossa existência.
Escolho sofrer, amar, ter uma vida saudável, adoecer, ter filhos...
A vida desde sua origem nunca mais deixou de existir e nesta linha de tempo esticada ao infinito desdobra sua multidimensionalidade e suas estruturas se tornam mais e mais complexas, com redes e interdependências incontáveis.
Escolhas sempre acertadas para que a vida se perpetue. Talvez alguns fenômenos de manifestação desta diva sejam extintos, se transformem, mas seu fim é inimaginável.
Na pequena turma de 1,5 a 2 anos tenho a possibilidade de reencontrar o vínculo materno, a capacidade de nutrir, de ser um grande seio de leite e de afeto, de descobrir o mundo pela boca, de experimentar sensações e apreender gostos, texturas, sons, cores, cheiros, de expressar-me livremente, espontaneamente, inocentemente, chorando, articulando palavras, comunicando gestos e olhares que conectam sentimentos e estabelecem a experiência de construção do conhecimento de forma concreta.
O tempo não é linear, cronológico, o aqui-e-agora parece ser eterno no mundo das crianças desta turma – eu quero agora, me dá agora - o espaço é visto de uma certa perspectiva (de baixo para cima), tudo parece tão grande, distante, peço colo para me aproximar das coisas, exploro o mundo em sua plenitude concreta movido pelos meus intintos mais primordiais de vida, a necessidade de ser nutrido, de ser cuidado, de repouso, de exploração, etc.
Eu e o mundo ainda parecemos ser uma só coisa, tudo gira em torno de mim, pareço não me reconhecer enquanto individualidade, egocêntrico, dizem uns, tudo me pertence e não divido com ninguém, o mundo é mEu.
- Agora o Marco. Ainda sou terceira pessoa para mim mesmo.
Aos poucos aprendo a dizer não, sou capaz de fazer escolhas, de decidir, de saber que minha ação interfere no mundo. Empurro o colega, bato no adulto, mordo, interfiro no mundo num misto de aprender como este mundo reage a mim ou de prazer sádico. Começo a construir meu repertório de formas de ação no mundo, meu modo de viver em cada convívio relacional (família – pai, mãe-, escola – professor@s, colegas, etc.) os limites sociais, as regras de convívio consensuadas e legitimadas culturalmente começam a formatar meu estar no mundo, socializando instintos, impondo horários e regras para alimentar-se, descansar, brincar, chorar, falar, etc, muitas vezes apelando para um padrão estético de formas de agir no mundo - não faz assim porque é feio. Ah! Assim o Marco fica feio. Meu escasso repertório de formas de agir é acrescido de atuações socialmente aceitas extendidas a mim, na grande maioria das vezes, desrespeitando a construção/revelação (enquanto sementes que carregam em si todos os potenciais de vida, poderíamos dizer que o conhecimento está todo em nós e revela-se no nosso modo de viver, em nossa sabedoria, em nossa forma de saborear o mundo?) do conhecimento pela emoção-ação-reflexão.
Agora o Marco.
Agora sou eu.
Mudo o conceito, a visão que tenho de mim mesmo, refiro-me a mim na primeira pessoa, sou individualidade, separo-me do mundo, o cordão umbilical que me liga a minha mãe sofre mais um corte, as constituições espaciais mudam, agora existe um mundo fora de mim, o tempo cronológico começa a fazer parte de forma rudimentar da minha experiência, não como mais quando tenho fome, mas quando é a hora, não repouso mais quando estou cansado, mas quando é a hora, não brinco mais quando quero, mas quando me é permitido, agora parece que tenho até mesmo hora para falar e expressar o que sinto, é tempo do aqui-e-agora esperar.
Escrito por Brincar é Viver às 10h46
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