Os registros escritos mais antigos e as rodas de conversa tribais mais primitivas confirmam sem discrepância a sede do ser humano por uma boa história. E serviram, praticamente, a todos os tipos de coisas. Mitos e lendas de um período mais antigo, ora desacreditados ou sequer compreendidos forneceram grande parte da matéria-prima do que hoje passa simplesmente como histórias de animais, contos de fada ou aventuras românticas. (Campbell, 1997)
Esta sede do ser humano por uma boa história traz em si, a figura do narrador, do contador de histórias. A fogueira e o ritmo da noite, aconchegando ouvintes em torno dos acontecimentos guardados na memória do narrador tradicional, a música do tear entrelaçando as histórias que se contavam como cânticos de trabalho, praticamente já não existem mais, também há a distância e o tempo empurrando os olhos para as imagens prontas e as palavras frouxas que não acendem a imaginação.
Com tudo isso, contar histórias não é uma arte sem lugar às portas do século XXI?
Mas, vamos experimentar convidar algumas pessoas. Sim, pessoas! Aquelas que ainda podem ouvir algo mais que suas próprias vozes e que são capazes de acolher palavras, no silêncio preenchido por uma pausa, um gesto, um olhar. Juntá-las em semicírculo e ficar bem próximo a elas – a distância necessária para que cada uma sinta-se única sem prescindir do grupo – e, então, deixar o olhar a fitar o avesso e ir-se derramando, palavra por palavra, no córrego da emoção. É esse o primeiro passo para acordar a imaginação.
Então contar de reis e rainhas, príncipes e princesas, gnomos e duendes, meninos e meninas, animais falantes e coisas de outro mundo, e coisas desse mesmo mundo, só que contadas com jeito de quem viu ou viveu o que fala e repete a história com emoção renovada a cada vez. Sim, porque contar histórias depende muito também de quem ouve. As crianças se encantam com o possível e o impossível. Os adultos se encantam em vislumbrar um caminho que lhes devolva o sonho. (Cisto, 2001, p.22)
A História, o Conto, a Fábula, a Lenda, o Mito
Dando vida ao clown (o palhaço), que interage e produz espelhos da vida quotidiana através de seus atos, de suas contações. Utilizando a contação como forma de aproximação ainda mais profunda tocando no sensível e sendo tocado, afetando e sendo afetado.
A alfabetização se constrói na articulação entre a compreensão dos signos e a compreensão do mundo, ler o livro e ler o mundo.
Cisto (2001) nos dá a grande dica para ser um bom narrador de histórias: ler muito; os livros, as placas, os gestos, as pessoas, a vida que vai em cada coisa. E não ter pressa – o contador de histórias tem que ter paixão pela palavra pronunciada.
Mas, igualmente deve ser sua paixão pelo silêncio. Só quando o silêncio interior se torna insuportável é que o contador está pronto para contar uma história. É preciso estar cheio desse silêncio para que contar a história seja absolutamente necessário. Toda preparação de história produz um rumor silencioso que vai se amplificando até explodir na palavra. Esse é o processo de maturação de uma história, sem o qual não há contação! (Cisto, 2001, p.24)
Quem conta tem que estar disposto a criar uma cumplicidade entre história e ouvinte, oferecendo espaços para o ouvinte se envolver e recriar. Esses espaços podem ser construídos pelas pausas, silêncios, ações, gestos e expressões, de forma harmônica. (Cisto, 2001).
Uma história é feita, na cabeça do ouvinte, pela construção de expectativas, frustrações, reconhecimentos e identidades. O que se oculta e vai sendo revelado aos poucos é próprio do jogo, também da linguagem. É por isso que o contador de histórias é também aquele que descobriu que brincar com as palavras é prazeroso.
Quando optamos por contar histórias, optamos por uma série de resgates: recuperar nossa infância e as fogueiras invisíveis que sempre imaginamos, a magia ideal para acender uma história; reencontrar nossos folguedos, medos (porque não?), mitos e, assim, refazer nossa trajetória afetiva; redefinir nossa imagem social diante daquilo que nos tornamos; revisitar nossa noção de cidadania para redimensionar nossas crenças na palavra como gesto sonoro capaz de se propagar ao infinito e incitar mudanças; remexer nossa imaginação com cargas sempre maiores de liberdade; recompor o lugar de seres criadores que todos ocupamos no mundo.