Marco Antonio da Rocha
De volta à escola, num dia de muito calor, estamos no pátio. Convidá-los ou não para irmos para a sala e trabalharmos.
Bom, ficamos no pátio e aquilo que tínhamos conversado e de certa forma planejado trocou de lugar com a hora do improviso.
A mala dos palhaços, Jujuba e Lenga-Chenga, volta a cena, depois do último encontro tivemos a idéia de trazer novamente os palhaços para a escola, com a questão do toque, do carinho como central, depois do auto-reiki e do toque nos colegas propôs às crianças que elas toquem nosso rostos ao maquiarem os palhaços parecia ser o próximo passo.
Brincando no pátio de repente as meninas desaparecem, só escutamos suas vozes, mas não as enxergamos, onde estariam, o que aconteceu...
Ainda sinto algum receio em relação à forma que as crianças aceitariam a figura dos palhaços, então resgatamos o ritual da mala pedindo para que todos virem mágicos e coloquem o que imaginam dentro da mala (será que as meninas estão aí dentro), antes disso propusemos toda aquela exploração através dos sentidos daquele objeto (Qual a cor, forma, textura, cheiro, som, etc...) e assim prendemos e estimulamos sua curiosidade, lógico que paramos várias vezes reiterando nossos acordos de convivência, nossas combinações e limites; então renascem os óculos com nariz de palhaço, bem como as duas máscaras vermelhas que cobrem o nariz. Tudo isso aceito de forma tranqüila e divertida por todas as crianças, ali mesmo no meio do pátio sentados na areia à sombra das árvores.
Depois disso as despedidas e a certeza de que em algum momento os palhaços retornariam.
Da curiosidade a espontaneidade, o improviso trouxe a possibilidade de jogar com o inesperado, com o feeling, ou aquele sentimento de entrega e experimentação, intuição, presentes no aqui-e-agora, como mais duas crianças brincando com os colegas o espaço do inédito se constituiu e a mágica do diálogo, da comunicação plena de sentidos significados, ou de significações sentidas se estabelece e depois disso tudo é beleza e alegria.
De uma iniciativa da Profe Tine de juntar as folhas secas do chão do pátio, surgem crianças carregando primeiramente com nosso auxílio depois sozinhas, uma bacia cheia de folhas a serem despejadas em nosso canteiro, a orientação da brincadeira foi o caminhão do lixo que faz a limpeza da escola, momento ressentido de não possuirmos uma máquina fotográfica para o registro, mas eternizado em nossa memória pela felicidade no rostinho de cada um que participava da brincadeira. Bom trabalho encerrado, todo o "lixo" recolhido, é hora de guardar as "ferramentas" (pazinhas, baldes...) e deixar tudo organizado. É hora do lanche, depois disso levar as cascas de frutas ao canteiro e enterra-las. O cavalo está partindo, um tronco de árvore jogado no pátio da escola vira um cavalo e leva todas as crianças para um passeio, ganha rabo de palha e galopa por todos os lugares ao som de pocotó e da música Meu Cavalo Piancó. Trabalho Dirigido X Trabalho Espontâneo. Na espontaneidade do ato de entrega ao brincar com as crianças surge a possibilidade de reinvenção de relações e convívios e da estimulação de aspectos que fazem parte de nosso direcionamento, um direcionamento muito mais intuitivo do que racional; muito mais pautado pelo sentir do que pelo pensar, e ao refletir sobre esta experiência neste instante, percebo ter uma profundidade muito maior, ser muito mais verdadeira por sua inteireza. Perceber o respeito pelo instante de cada um no processo que despertou a experiência de convívio, o respeito entre seres humanos que se entendem como sabedores e desejosos, independentemente de seu tamanho, idade, sexo, cor, etc... Como tornar inteligível para educadores e famílias o poder destes instantes de produção, destas formas que fogem aos moldes conhecidos de ensinar e aprender, da riqueza do descobrir o mundo e descobrir-se no mundo neste processo de brincar. Este brincar que ao ser refletido passa a ser chamado, muitas vezes de trabalho, o que não deixa de ser uma verdade, pois para nós adultos, "trabalho é coisa séria", e para nós crianças brincar também é coisa muito séria.
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Alexandre Daniel Noronha é psicólogo, artista plástico, facilitador de Biodança e Clown. Homem menino sincero e espontâneo no que faz e sente, sonho tornando-se realidade!
Marco Antonio da Rocha é psicólogo, músico e Clown. Amante e amado, pai e filho, certo da incerteza das coisas, pura possibilidade!
Escrito por Brincar é Viver às 21h21