IDENTIDADE E COTIDIANO
IDENTIDADE E COTIDIANO
Identidades se revelando no constante contato com outras identidades. A desacomodação surge. Quem sou eu? Que grupo é este? O que sou neste grupo?
Um psicólogo no dia-a-dia da escola. Um homem no meio de um grupo de mulheres. Um homem na educação, na educação infantil, entre as crianças...
O que desacomoda e faz me desconhecer, o que causa estranhamento, é espelhado e sentido diretamente no contato com os seres que compartilham o espaço da Escolinha.
Oh! Profe (.?.) Marco (.?.) - Mônica.
Oh! Profe (.?.) Marco (.?.) Proofe (.?.) Aí eu tô atrapalhada! – Magali.
Oh! Profe (.?.) Ah! Não! Marco. – Cebolinha
Oh! “Carolino” vem cá. – Cascão
A gente vai ao banheiro de porta aberta e esquece que agora tem o Marco na escolinha. – Professoras.
Um cotidiano de relações e interesses que forjaram papéis sociais defendidos em nossa trajetória histórica de seres humanos.
Um cotidiano enclausurado em seu movimento contínuo?
A cristalização de nossas atuações posturas repetitivas consumam relações pautadas em princípios, muitas vezes alienantes, por que não dizer, até mesmo anti-vida, onde homens e mulheres dispendem um grande esforço energético para manter seus instintos primordiais controlados, mantendo um estado, às vezes, a custas de sofrimento, de adoecimento; negando-se condutas inatas aos seres humanos, aos seres vivos, como amar, cooperar, repousar, guarida, etc; aspectos integrantes da “bio logia”, de uma lógica da vida.
O homem com suas características próprias, voz grossa, pêlos pelo corpo, músculos, silueta e sexo diferentes, mas com as mesmas capacidades potenciais dos seres humanos, o amor incondicional, a maternagem, a paternagem, as inquietações, necessidades e curiosidades que o fazem interagir até os seus limites, querendo reconhecer-se mais e mais.
No nosso cotidiano de variáveis e papéis aparentemente controlados, uma nova presença parece balançar nossas estruturas, nos jogar momentaneamente no caos para daí reordenar sentidos, resignificar papéis e posições frente a vida.
Me parece que não é nada mais que a própria vida cumprindo seu papel de educadora, de mestra misteriosa e suprema, nos apresentando a cada instante a chance de nos reconectarmos com a beleza e o prazer de viver. É como a criança que ao sentir medo do escuro é tomada pelas mãos e levada até a escuridão com segurança e tem então a possibilidade de perceber e superar seu limite. Uma sabedoria interna nos toma pelas mãos e nos conduz até a beira do abismo, mostrando-nos a possibilidade de renovação, de religação.
Na realidade talvez o mais simples de tudo seja nos darmos conta, percebermos, ou tomarmos consciência de que estamos vivos.
O cotidiano é feito de escolhas, conscientes ou inconscientes, me parece que sempre escolhas corretas, pois existe nelas a semente do aprendizado e o fim de nosso estado de dissociação no encontro da harmonia e da integralidade de nossa existência.
Escolho sofrer, amar, ter uma vida saudável, adoecer, ter filhos...
A vida desde sua origem nunca mais deixou de existir e nesta linha de tempo esticada ao infinito desdobra sua multidimensionalidade e suas estruturas se tornam mais e mais complexas, com redes e interdependências incontáveis.
Escolhas sempre acertadas para que a vida se perpetue. Talvez alguns fenômenos de manifestação desta diva sejam extintos, se transformem, mas seu fim é inimaginável.
Na pequena turma de 1,5 a 2 anos tenho a possibilidade de reencontrar o vínculo materno, a capacidade de nutrir, de ser um grande seio de leite e de afeto, de descobrir o mundo pela boca, de experimentar sensações e apreender gostos, texturas, sons, cores, cheiros, de expressar-me livremente, espontaneamente, inocentemente, chorando, articulando palavras, comunicando gestos e olhares que conectam sentimentos e estabelecem a experiência de construção do conhecimento de forma concreta.
O tempo não é linear, cronológico, o aqui-e-agora parece ser eterno no mundo das crianças desta turma – eu quero agora, me dá agora - o espaço é visto de uma certa perspectiva (de baixo para cima), tudo parece tão grande, distante, peço colo para me aproximar das coisas, exploro o mundo em sua plenitude concreta movido pelos meus intintos mais primordiais de vida, a necessidade de ser nutrido, de ser cuidado, de repouso, de exploração, etc.
Eu e o mundo ainda parecemos ser uma só coisa, tudo gira em torno de mim, pareço não me reconhecer enquanto individualidade, egocêntrico, dizem uns, tudo me pertence e não divido com ninguém, o mundo é mEu.
- Agora o Marco. Ainda sou terceira pessoa para mim mesmo.
Aos poucos aprendo a dizer não, sou capaz de fazer escolhas, de decidir, de saber que minha ação interfere no mundo. Empurro o colega, bato no adulto, mordo, interfiro no mundo num misto de aprender como este mundo reage a mim ou de prazer sádico. Começo a construir meu repertório de formas de ação no mundo, meu modo de viver em cada convívio relacional (família – pai, mãe-, escola – professor@s, colegas, etc.) os limites sociais, as regras de convívio consensuadas e legitimadas culturalmente começam a formatar meu estar no mundo, socializando instintos, impondo horários e regras para alimentar-se, descansar, brincar, chorar, falar, etc, muitas vezes apelando para um padrão estético de formas de agir no mundo - não faz assim porque é feio. Ah! Assim o Marco fica feio. Meu escasso repertório de formas de agir é acrescido de atuações socialmente aceitas extendidas a mim, na grande maioria das vezes, desrespeitando a construção/revelação (enquanto sementes que carregam em si todos os potenciais de vida, poderíamos dizer que o conhecimento está todo em nós e revela-se no nosso modo de viver, em nossa sabedoria, em nossa forma de saborear o mundo?) do conhecimento pela emoção-ação-reflexão.
Agora o Marco.
Agora sou eu.
Mudo o conceito, a visão que tenho de mim mesmo, refiro-me a mim na primeira pessoa, sou individualidade, separo-me do mundo, o cordão umbilical que me liga a minha mãe sofre mais um corte, as constituições espaciais mudam, agora existe um mundo fora de mim, o tempo cronológico começa a fazer parte de forma rudimentar da minha experiência, não como mais quando tenho fome, mas quando é a hora, não repouso mais quando estou cansado, mas quando é a hora, não brinco mais quando quero, mas quando me é permitido, agora parece que tenho até mesmo hora para falar e expressar o que sinto, é tempo do aqui-e-agora esperar.
Leia este blog no seu celular
Escrito por Brincar é Viver às 10h46